Entrevista Vedrana Grgin-Fonseca (Janeiro 2001)

Os brasileiros que tiveram a chance de ver a jogadora croata Vedrana Grgin-Fonseca em ação, provavelmente não se esqueceram. Uma ala-pivô talentosa, ágil, de disciplina incomum e precisa nos arremessos. Uma jogadora tranqüila dentro de quadra, que não se abalava com desvantagens no marcador.A primeira vez que a atleta esteve no Brasil, foi defendendo o clube italiano Ahene Cesena, no Mundial Interclubes de 1994, onde também jogava a americana Vicky Bullet. Já nessa primeira visita, a croata deixou suas marcas. Foi uma das responsáveis por dinamitar a defesa da Ponte Preta, de Hortência, Karina e Adrienne Goodson, na única derrota da campanha do bi-mundial

Três anos depois, a atleta voltou para ficar e jogar. Primeiro na Microcamp, e depois nos times do técnico Vendraminni, conquistou títulos e mais títulos.

Em dezembro de 2000, se casou com o brasileiro Marco Antônio Gatto Fonseca, e com ele, tem peregrinado os quatro cantos do planeta, mostrando o que sabe: jogar basquete.

Bi-campeã da WNBA, pelos Sparks, Vedrana tinha como meta desse ano a disputa do final-four da Euroliga, pelo seu novo clube, o poderoso Bourgés, da França (mesmo time de Kelly Santos). Mas, nas primeiras partidas da Liga Francesa, Vedrana teve um entorce no joelho direito, com ruptura parcial do ligamento anterior. Foi aventada a hipótese de recuperação sem cirurgia, mas não houve melhora. Assim, Vedrana se submete a uma cirurgia no próximo dia 09 (segunda-feira), com uma previsão de seis a oito meses para o retorno às quadras.

Nós, aqui, mandamos todos os votos de uma rápida recuperação para Vedrana, para que as quadras não sejam poupadas por muito tempo de seu talento.

E matamos a saudade nesta entrevista, que ela gentilmente nos responde, direto de Bourges (França).

1) Vedrana, vamos começar pelo momento presente. Como foi a sua contusão?

Eu me machuquei no dia 26 de outubro jogando em casa contra o Nice pelo campeonato francês (equipe da Mamá).

2) Como está sendo encarar uma contusão assim logo no início da sua história no Bourges?

Com certeza não está sendo nem um pouco agradável, eu estava muito motivada para esse ano e tinha colocado uma meta para mim mesma que era jogar em uma grande equipe e conseguir ir para o Final-Four da Euroliga, mas vai ter que ficar para o ano que vem, pelo menos pra mim, pois acho que meu time conseguirá a vaga para o Final Four.

3) Falando em Bourges, como foi reencontrar a pivô brasileira Kelly Santos, que foi sua companheira na Microcamp/Campinas, em 1997, quando ainda era uma juvenil?

É muito bom reencontrar alguém que a gente já conhece, pois você se sente mais confortável estando em uma equipe com alguém que você já jogou antes. A Kelly está jogando muito bem e pelo primeiro ano na Europa já está mostrando que é uma excelente jogadora assim como pessoa.

4) A primeira vez que os brasileiros conheceram seu basquete foi no Mundial Interclubes, de 1994, quando você pertencia ao elenco do clube italiano Ahena Cesena. Gostaria que você falasse um pouco do período anterior a este: quando você começou a jogar? Em que país foi? Seus principais títulos e clubes nesse período.

Eu comecei a jogar basquete com 10 anos em Split pela Jugoplastika onde joguei até os 19 anos quando fui para a Itália. Aos 13 anos, comecei a jogar na seleção de cadetes da antiga Iugoslávia, joguei até os 16 anos quando minha seleção foi a segunda colocada no Campeonato Europeu de Cadetes em Portugal, campeonato o qual fui eleita a MVP, dos 17 anos até hoje jogo pela seleção Croata (em 1992 a Croácia se tornou um país independente, após a guerra). Jogando pela Jugoplastika, conquistei três títulos de Campeonato Croato e também três copas Croata, em 1995 fui para Cesena onde fiquei por dois anos, depois fui para Grécia onde fiquei um ano e fui eleita a MVP do Campeonato Grego, de lá fui para o Brasil, e daí pra frente você já conhece.

5) Qual foi a sua primeira impressão do Brasil, durante a disputa do Mundial Interclubes?

Com relação ao Brasil não tive a oportunidade de conhecer muito, mas vi que é um povo com um temperamento muito vibrante, e adorei disputar esse torneio onde tive a oportunidade de ver Hortência e Paula jogando, que até então as conhecia somente de nome e um pouco pela TV, mas nunca tinha visto elas jogarem ao vivo.

6) Já surgiram convites para você jogar no Brasil naquela época?

Não houve nenhum convite.

7) Como foi sua vinda para a Microcamp, em 1997?

Eu era muito jovem e para mim foi uma decisão difícil, pois o Brasil estava um pouco longe de minha casa, mas a Raza que já estava [a pivô bósnia Razija Mujanovic] em Campinas, conversou bastante comigo e eu acabei aceitando o convite.

8)  Foi complicada sua adaptação em relação à filosofia de jogo brasileira? E ao idioma?

Não tive nenhum problema para me adaptar ao basquete do Brasil, pois não vi muita diferença da forma que eu jogava. Já o idioma, eu falava o italiano e o clube me arrumou uma professora de Português para me ensinar a falar. Para mim, foi fácil aprender a língua, depois de uns 3 ou 4 meses já estava me virando muito bem.

9) Quais suas principais recordações do time de Campinas?

Ter jogado com a Paula e eu também me dei muito bem com o Barbosa.

10) Logo que o Paulista se encerrou, você se transferiu para o projeto do Fluminense, de Hortência. Quais foram os fatores que pesaram nessa decisão?

Recebi uma proposta da Hortência e achei que seria melhor pra mim, pois a equipe do Fluminense era muito forte.

11) No Fluminense, você reencontrou a pivô Vicky Bullet, com quem você já havia jogado na Itália e jogou vários anos aqui no Brasil. Como era sua relação com a Vicky em quadra?

Adoro a Vicky, ela já era minha amiga desde a Itália e com uma jogadora tão boa como ela, é super fácil de se adaptar a qualquer jogo.

12) Dos títulos conquistados no Brasil, qual é aquele que você guarda com maior carinho?

Campeonato Brasileiro no Rio de Janeiro com o Fluminense, foi um grande time, com uma torcida completamente doida. Perfeito.

13) Gostaria que você falasse um pouco dos anos no Paraná Clube. 

 No Paraná foi só alegria, pois conseguimos manter praticamente o mesmo time do Rio, mas com a inclusão da Helen, não tinha como dar nada errado. Jogávamos muito bem, pois tínhamos uma convivência muito grande tanto dentro como fora da quadra, o Vendra, Borracha, Cláudio e Gatto eram especiais para essa união da equipe.

14) Na época, o que foi dito no Brasil é que você estaria saindo do país, para se transferir para clubes europeus, que lhe garantissem maior visibilidade e um contrato na WNBA. Foi esse o principal motivo? Ou pesaram outros fatores nessa decisão?

Eu já estava jogando na WNBA quando tomei a decisão de voltar a jogar na Europa. Sem dúvida alguma o fator dinheiro sempre é importante na carreira de uma jogadora, mas eu sentia muitas saudades de poder estar atuando na Europa novamente. Se o basquete Brasileiro estivesse hoje valorizado como era na época em que eu jogava no Brasil, acho que estaria jogando com o Vendra até hoje.

15) Depois disso, você passou pela Polônia, Espanha e França. Gostaria que você falasse um pouco dessas suas experiências.

Na Polônia, disputei a Euroliga e faltou muito pouco para disputar o Final-Four, foi uma experiência muito boa e também gelada, pois faz muito frio por lá e eu adoro calor. Na Espanha, foi a primeira vez na minha carreira que eu me desentendi com um treinador e a melhor opção foi trocar de equipe no meio da temporada, mas tudo isso foi feito amigavelmente. Na França em Villeneuve D’ Asqc, encerrei minha temporada 2001/2002, e acho que toda a decepção que tive com aquela treinadora de Barcelona, coloquei como vontade no meu jogo na França, joguei muito bem e foi aí que surgiu o convite para jogar no Bourges.

16) 1) Na WNBA, você acabou ficando no Los Angeles Sparks, e participou das conquistas recentes do time. Apesar disso, você joga pouco no time, bem menos que na Europa. O papel de uma jogadora estrangeira na WNBA, na Europa ou no Brasil é diferente? 

Sem dúvida alguma é uma experiência muito boa jogar a WNBA. Se eu realmente jogasse seria melhor ainda [risos], mas com certeza uma jogadora estrangeira tem uma função completamente diferente na Europa e no Brasil. No meu modo de entender, a equipe contrata uma jogadora estrangeira para ser uma das principais opções do técnico, mas na WNBA isso não acontece.

17) Como você compara o nível do jogo praticado na WNBA e o jogo na Euroliga, por exemplo?

Na WNBA, o jogo é mais rápido que na Europa, pois as equipe jogam mais no um contra um, sem muita organização tática. Na Europa, se valoriza bastante o jogo coletivo e por isso acaba parecendo que o jogo se torna mais lento, mas na realidade são filosofias diferentes, é difícil fazer uma comparação. 

18) Nos Sparks, outra brasileira aparece no seu caminho: a pivô Érika. Como foi o contato com ela? Vocês já se conheciam?

Foi na WNBA que conheci a Érika, ela é uma jovem muito talentosa e continuando assim vai ter um futuro brilhante, nós nos divertimos muito em Los Angeles.

19) Você já manteve um contato com a WNBA sobre o próximo ano? A contusão deve afastá-la também de lá?

Eles sabem da minha contusão mas ainda não conversei com eles sobre esse assunto. Estou esperando fazer a cirurgia para depois nos podermos conversar sobre isso. Pode ser que sim como pode ser que não, tudo dependerá da minha reabilitação. No momento estou mais preocupada e ficar boa o quanto antes.

20) Das jogadoras brasileiras que você viu jogar, qual a que mais te impressionou?

Sem dúvida HORTÊNCIA e PAULA, essas mulheres jogavam muito.

21) Você é uma jogadora com passagens por vários países. Gostaria de saber dentro dessas duas experiências, o que o basquete brasileiro tem de melhor e o de pior em relação aos outros cantos do mundo?

Só tenho boas recordações do Brasil e com certeza o que há de melhor são as jogadoras que jogaram comigo e também as que jogaram contra mim.

22) Apesar de contar com jogadoras talentosíssimas, como você, a Korie Hlede e outras, o basquetebol feminino da Croácia ainda não se destacou em nível internacional. Por que isso acontece?

Acho que depois da separação da antiga Iugoslávia caiu muito a qualidade do Basquete na Croácia e também penso que o trabalho dos clubes no momento não é tão bom como era antes enquanto eu estava jogando por lá.

23) Você jogou por quatro anos no Brasil, seu marido é brasileiro e responsável pela simpática adição do sobrenome “Fonseca” ao seu nome. Vocês pensam em retornar ao Brasil, algum dia?O Brasil será com certeza a nossa última parada, queremos morar no Brasil, pois é um país que eu gosto muito e se tiver a oportunidade, gostaria de terminar minha carreira jogando por aí. 

24) Quais são seus planos após esse período de recuperação?

É muito cedo para falar disso, mas se tudo correr bem devo continuar por aqui mesmo para a próxima temporada.

25) O Bate-Bola, para encerrar:

Uma cidade: Split
Uma música: Eu Juro (Leandro e Leonardo)
Um filme: A Sociedade dos Poetas Mortos
Uma comida internacional e uma comida brasileira: Pasticada (comida Dálmata: um tipo de carne servido com nhoque) e Churrasco.
Uma cidade no mundo e uma cidade no Brasil: Roma ? Fortaleza.
A bola que eu chutei e caiu: Com a Seleção Croata adulta disputando o campeonato Europeu em 1995 chutei uma bola com o cronômetro zerando e fiz dois pontos, ganhamos de um.
A bola que eu chutei e não caiu: Campeonato Paulista em Carapicuíba, chutei uma bola de três no final da partida com o jogo empatado e errei, mas tudo bem pois a Leão pegou o rebote, sofreu falta e fez um lance livre, o suficiente para ganharmos o jogo.
O jogo que eu não esqueço: Final no Campeonato Nacional no Fluminense.
O jogo que eu tento esquecer e não consigo: nenhum
A minha principal virtude em quadra, e fora dela: vontade de jogar; ser alegre.
O meu maior defeito em quadra, e fora dela: falta de agressividade; não sei, deixo com que vocês me julguem
Um título: Campeão Nacional com o Fluminense
Um técnico: Vendramini
Um time: Fluminense
Uma companheira: Mira Tabak
Uma marcadora implacável:Cathy Melain
A melhor jogadora que eu já vi jogar: Hortência
Uma jogadora para o futuro: Érika
Uma quadra: Gripe em Split, onde aprendi a jogar basquete
Um sonho: Que minha vida continue como está, pois me considero uma pessoa muito feliz ao lado do ciccione do meu marido.

2 respostas para Entrevista Vedrana Grgin-Fonseca (Janeiro 2001)

  1. […] Entrevista Vedrana Grgin-Fonseca (Janeiro 2001) […]

  2. Regina disse:

    Vedrana, foi um prazer te conhecer hoje, por um simples acaso, passando pela loja de calçados em Split (lugar adorável!). Como não acompanho muito o basquete, porque como uma boa brasileira acompanho mais o futebol. Até porque meu filho de 16 anos é jogador e está tentando seu lugar … Sempre que posso e que há oportunidade acompanho o jogo das meninas do volei. Mas, hoje quando voltamos ao hotel e pesquisamos sobre tua trajetória, fiquei muito emocionada e orgulhosa de teres uma história brasileira. Parabéns!

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